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* O documentário Aterro,  sobre as catadoras do extinto lixão do Morro das Pedras, em BH, está disponível em DVD, com uma embalagem à altura do ótimo conteúdo, e pode ser comprado por R$ 20, com frete grátis, no site do filme, cada vez mais merecidamente premiado: http://www.aterrodoc.com/dvd/

Num final de domingo pós-plantão, eu assistia a um catador puxar sua carroça João Pinheiro acima, enquanto esperava ônibus na praça Afonso Arinos, de pernas atadas! A tração humana me lembrou, novamente, do “Abajur” de Cildo Meireles. Mas, ao contrário dos musculosos homens que moviam o dínamo da obra de arte, o carroceiro tinha um físico frágil, porém um corpo – vida* – em plena biopotência, na sua resistência passiva de trabalhador informal, “sem patrão”, e obtendo no lixo alimentos, roupas, calçados, alianças de ouro, sabe-se lá quais achados, a preço de nada. Sobrevivendo sem chefe nem dinheiro, alheio à formalização – a forma de vida capitalista -, é senhor de si, com seus ônus e bônus.

Escrevi “sem patrão” entre aspas porque cito uma ex-catadora do extinto lixão do Morro das Pedras, uma das entrevistadas no documentário “Aterro“, lançado nesta quinta-feira, 31/03, em Belo Horizonte. O filme, que a princípio “tinha como única proposta o resgate histórico da cidade”- nas palavras do diretor Marcelo Reis -, acabou por revelar a privatização do lixo que se projeta com a PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos).

Sancionada pelo então presidente Lula em 2010, a legislação – ou o biopoder – elimina – ou “deixa morrer” – os lixões e, consequentemente, os catadores. Pela lei, os municípios agora são responsáveis pelo manejo do lixo e pela proteção ambiental. Na prática, as prefeituras pagam para que empresas “guardem” o lixo.

É o caso da PBH. Ao custo de R$40 reais a tonelada, as 3,5 mil toneladas diárias de lixo belo-horizontino são depositadas no aterro da vizinha Sabará – propriedade da Queiroz Galvão, empresa envolvida em processos “relativos às licenças legais de funcionamento: desde a licitação junto à prefeitura de BH até a licença de atuação para o tipo de resíduos; à proximidade do Rio das Velhas e ao código da ANAC, pela proximidade da cabeceira da pista da Pampulha. Tudo mofando no ministério público mineiro”, informa o diretor Marcelo Reis. Há uma certa mobilização da população, que diz ter sido enganada com o projeto de uma inexistente usina de reciclagem.

Como se vê no documentário, catadores não podem entrar no aterro – assim como a equipe de filmagem teve o acesso negado. O lixo fica todo lá, às margens do rio das Velhas – o maior afluente do São Francisco -, aguardando para ser transformado – quem sabe um dia – em (mais) dinheiro para a Querioz Galvão (numa busca na internet você pode saber que empresa é esta), como biogás.

 

Para aquele tipo de ambientalista que se preocupa mais com os urubus (leia trecho da análise comparativa de Neide Jallageas das obras “Bandeira Branca”, a grande polêmica da última Bienal de SP, e “Abajur” – minha descrição do trabalho de Cildo Meireles aqui) e com as árvores (leia análise de Luiz Carlos Garrocho publicada como comentário no blog “Deslocamentos” sobre a poda no parque Municipal, após a queda de uma árvore matar uma mulher) do que com a vida humana, essas informações podem – e devem – fazer erguer uma bandeira ecológica.

Mas o que tanto me tocou no documentário é que, ao contrário do discurso ambiental mais (senso) comum, não opõe “‘natureza’ e ‘vidas humanas’ nem compara uma coisa à outra”, armadilha que Garrocho refuta de cara no comentário que linkei acima. “Aterro” coloca em primeiro plano senhoras especialistas que questionam a aterragem com toda a propriedade de quem conheceu e viveu o lixão do Morro das Pedras – que funcionou entre 1945 e 1971, na cava de uma antiga pedreira municipal, atraindo moradores. Dentre eles, muitos imigrantes, de cidades como Serro e Morro do Pilar – de onde vieram algumas das entrevistadas no filme.

Na capital, colhiam no aterro o que outrora plantavam e apanhavam em seus quintais. Segundo os relatos, a olhos brilhando, eram fartos os carregamentos despejados direto de supermercados, frigoríficos, restaurantes. Eram tempos de alegria, afirmam as senhoras. Despejado de qualquer jeito, o lixo também era motivo de incêndios e explosões, devido à concentração de gás, e também de acidentes com os caminhões, com vítimas fatais difíceis de serem contadas em registros malfeitos.

Depois de ver o doc, fiquei mais certa de que catadores não são pessoas “de qualidade”, como disse em entrevista João Jardim, codiretor de um filme sobre o mesmo tema do aterro, mas o de Gramacho. Qualidade é uma característica de produtos e não de gente! Ao contrário de Jardim e Vik Muniz, Marcelo não agiu como um cafetão (termo emprestado da Suely Rolnik) em relação às catadoras, na tentativa de ganhar um Oscar. Produto, commodity é o lixo, na visada da política de resíduos sólidos.

Saí da Humberto Mauro meio desolada com a privatização do lixo que alija os catadores, consequência que antes eu só visualizava – em casa, na rua, na Asmare – na coleta seletiva – a tendência, no longo prazo, é os recicláveis serem comercializados por empresas de limpeza urbana para a indústria.

Mas catadoras – muitas das senhoras continuaram catando nas ruas – e catadores, puxando seus carrinhos ou – coincidência muito feliz – tomando ônibus comigo no dia seguinte à sessão – eu indo para o trabalho, ele, o senhor Nelson, encerrando seu expediente -, “do interior do que poderia parecer a vida nua a que foram reduzidos pelos poderes, sejam eles soberanos, disciplinares ou biopolíticos [expressam] uma vida, singular, impessoal, neutra, não atribuível a um sujeito e situada para além do bem e mal. Talvez por tratar-se de uma vida que não carece de nada, que goza de si mesma, em sua plena potência – vida absolutamente imanente -, que Deleuze referiu-se à beatitude.” (PELBART, Peter Pál. Vida capital: Ensaios de biopolítica“. São Paulo: Editora Iluminuras, 2003. p. 51)

* As palavras grafadas em itálico são citações indiretas de Pelbart, que por sua vez cita Foucault, Agamben e outros autores no seu livro “Vida Capital – Ensaios de biopolítica”, em especial no belíssimo capítulo “O corpo do informe”.

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11 Comments

  1. Oi Débora, lindo o texto. Foi muito bom ler.
    Uma correção e um esclarecimento.
    # Em média, são 3,5 MIL toneladas/dia.
    # Os processos judiciais são relativos as licenças legais de funcionamento: desde a licitação junto a prefeitura de BH a licença de atuação para o tipo de resíduos, proximidade do Rio das Velhas e código da ANAC, pela proximidade da cabeçeira da pista da Pampulha. Tudo mofando no ministério público mineiro.

  2. Sobre o plano de usina de reciclagem não existe nenhum processo, visto que não existem provas.. é uma longa história. Existe uma certa mobilização local, mas tenho poucas infos sobre. Fique a vontade de deletar esses coments. Depois passo aqui de novo!

    • Marcelo! Obrigada em dobro: pelo filme e pelas correções, que já incluí no texto. Gostaria de comprar um DVD assim que estiver pronto, para pirateá-lo à vontade, inclusive em Sabará. Quando será lançado? Parabéns e um agrande abraço, Débora

  3. Obrigado pela primeira crítica do filme.
    O DVD demora. São extras, legendas, prensagem.
    Mas ficará sabendo no lançamento.
    Abraaa

  4. Muito lindo o texto, Dé. Você, como sempre, com um olhar sensível, “des-cubrindo” a cidade. Ler você me faz sentir mais próxima da nossa BH. Quero ver o filme. Parabéns ao Marcelo Reis. Bjos

    • Tomara que role uma sessão aí em Madri, flor! Bj

    • Carolzinha, e vc, por sua vez, me faz sentir perto de lugares onde nunca pus os pés (aeroporto não vale!). Troca boa, ainda que regada a muita saudade. Bj

  5. O filme revela também como os chamados “poderes públicos” são arrogantes. As catadoras só por seu discurso no filme, seu senso comum que tanto falta aos politicos, para não falar na experiência de vida e trabalho, não seriam as mais indicadas para fazer a consultaria da reciclagem do municipio? Não parei de pensar nisso depois. Provavelmente você precisa de um curso superior para isso, ou pelo menos de ser amigo do prefeito, mesmo que nunca tenha metido nem pé nem mão num aterro!

    • Realmente, Manu, a exemplo do tratamento dado ao lixo, descarta-se a valiosa sabedoria da experiência (prefiro a senso comum)dos catadores, pessoas que deveriam ter uma participação central (prefiro a consultoria, um serviço) na construção de uma política pública do lixo. Mas são tratadas como vítimas no discurso da PNRS, que privatiza os resíduos – no final levam os capitalistas que têm dinheiro – não diploma – para investir na nova commodity.

      Mas esse descarte da sabedoria já existe na Asmare, citada ali no final do texto, Centro Mineiro de Referência em Resíduos e quetais, com suas linhas de montagem artesanais* de inutensílios de lixo feitos em série. Quer desperdício maior que bibelô de pet, material reciclável que o deixa de ser quando recebe tintas, colas etc?

      * Tanto o que chamo de linhas de montagem artesanais quanto o descarte da sabedoria do não-diplomado/titulado são boas questões para apresentar ao Pelbart na palestra que fará na Mostra de Design, já que o tema é: “Artesanato urbano e política”! Vamos? É no dia 30/04, sábado, de manhã: http://www.mostradedesign.com.br/2011/programacao/seminario-internacional-design-e-politica

      Nota: não gosto de escrever senso comum, pois a ciência conseguiu um lugar dúbio na nossa sociedade e época, de 1) verdade inquestionável ou só questionável mediante diploma/titulação próprias para isso e 2)conhecimento vulgar(!) – a escola e a imprensa são dois instrumentos disso. A expressão “senso comum”, no meu entender, hoje designa a aceitação e reprodução desse saber científico, tido como inquestionável por quem não é especialista. Comum é aquele que não elabora o saber pelo próprio pensamento e aceita e reproduz a verdade(científica, moral)

  6. Débora,
    Em primeiro lugar parabéns pelo seu texto. Bom, fiquei roendo aqui de curiosidade pois só assistirei a esse documentário quando ele chegar em Recife, dezembro. Aqui existem cooperativas de catadores, o principal lixão daqui (Muribeca) foi desativado há quase dois anos. Hoje em Recife o que existe (ou tenta existir) são as cooperativas de catadores, uma idéia boa pois é coordenada por eles mesmos mas as condições de trabalho são… sem bons adjetivos. A exceção de uma, localizado no bairro da Torre, as outras são espaços sem projeto adequado, sem condições de trabalho, higiene e segurança. Até o espaço que teve projeto esse não foi executado na sua totalidade (poder público…) e ainda há uma movimentação do MP para fechá-lo pois não funciona como deveria e é localizado próximo a edifícios de classe media. Existem também muitos depósitos ilegais com deposeiros, atravessadores e com condições piores ainda pois em muitos desses também tem um traficante por perto quando ele não é o dono do depósito.
    A idéia da organização em cooperativas é boa mas esbarra muito mais na falta de interesse de profissionais em assumir projetos assim do que na própria burocracia (licenças ambientais, alvarás, bombeiros e etc). Em junho próximo apresento um trabalho na UFPE, um projeto arquitetônico e é um centro de triagem e apoio para esses profissionais, a idéia seria pelo menos um bem estruturado por região administrativa da cidade. E comecei a idéia justamente observando um carroceiro e fui perguntar como ele vivia, como era o trabalho e o local de entrega, de que forma ele transformava o material recolhido em dinheiro, se ele tinha alguma orientação como usar pelo menos luvas, se tinha apoio, qual seria a melhor forma de coleta e armazenamento … E assim desde o início do ano passado fiz várias entrevistas com diversos catadores e visitas a diversas cooperativas e depósitos, legal e ilegal. Nos depósitos ilegais consegui apenas entrevistas, fotos nem pensar, não me deixaram tirar (mas ainda vou tentar pelo menos uma para colocar no estudo de caso rs). A diferença das cooperativas legais pras os depósitos ilegais é pouca, as cooperativas tem o apoio da prefeitura e não são fechadas (não pela prefeitura) e não tem problemas com drogas porém a (falta de) condição de trabalho é bem semelhante.
    Quando apresentei minha idéia uma das perguntas dirigidas a mim foi “E isso é profissão?”… Minha resposta será dada em junho. Se a banca aprovar meu trabalho envio pra você e já entrei em contato através da página do Facebook de Aterro. Pena que apresentarei antes de assitir ao documentário. É isso.

    • Oi, Nadja!
      Desculpe a longa demora em publicar e responder seu comentário.
      Achei bem legal ele ter repercutido tão longe, como só a internet permite.
      E estou tão curiosa sobre seu trabalho quanto vc deve estar para ver o Aterro – quando isso acontecer, gostarei de ler ou ouvir suas impressões também.
      Mande notícias do seu trabalho e sucesso na conclusão e apresentação dele.
      Um abraço,
      Débora


One Trackback/Pingback

  1. By Estão vendo | cartografiasentimental on 02 Aug 2013 at 7:57 pm

    […] neste link, Sobre as sobras, post que escrevi sobre o Aterro logo após assistir ao filme pela primeira […]

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