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dtsnoei

oonda

s e n t i d o
embaralhado
d e s t i n o

céu de carneirinhos
um grande intestino
desembrulhado

taquara casula borbolheta
canudo casula borbolheta
canudo casulo borbolheta

borbolheta

Mais um dia cinco, o nono desde que a Samarco (BHP + Vale) destruiu o Bento com seu rejeito.
Cresci na Vila (Samarco), que fica numa parte do distrito de Antônio Pereira, em Ouro Preto, ligada ao Bento por uma estrada de terra (que corta uma floresta de madeireira) – e desligada pela lama.
Digo que meu sangue nem é feito de hemácia, mas de hematita, pois que meu pai trabalhou na mineradora desde antes de eu nascer até se aposentar.
Criança ainda, estive na beira da cava de Germano, sem funda de tão funda, e desde então morri de medo do fim do mundo.
Então, em cinco de novembro de dois mil e quinze o mundo acabou – e eu faço parte dessa destruição.

Se alguém pode e deve criar um mundo novo, é a gente do Bento.

E eu sinto muito, mais ainda pela minha impotência.

compartilharquipélago

– poema à procura de um lugar –

universusoco

domingo lido comigo

cia / lado a lado / ausên-

essa vida que nos atrav-

encruzilhada solar

o negro dorieu videla
compartilhamento faz arquipélago
sim, compartilharquipélago:

dorieu videla

dorieu videla 02

Desenhos de Geraldo Alves, em fotos de Manoel Teixeira, do livro “O Negro Dorieu Videla”, de Edésio Fernandes (org.): https://issuu.com/edesiofernandes/docs/livro_edesio_web

 

Uma cruz de voile – e não de madeira, tampouco de metal. Cruz volátil, que pode voar – como as próprias nuvens expressas no bordado.
Escrito em linha se lê, na horizontal: “SE VOCÊ SONHA COM NUVENS”.
Leonilson costurou nuvens, bordou água.
Insólito isso. Pra mim, está aí a poesia e a estesia desse poema visual ou poemobjeto – e não na semioticice.
Vertiginoso sublime, sublimação, de sólido a gasoso, dissolução, “precipitação de sensações” que experimento no encontro com a obra: ser volátil e nisso me sentir, paradoxalmente, mais matéria do que nunca, corpo, em intensidade. Experiencio esse corpo que é movimento, e não forma. Desorganizo-me, faz-si corpo sem órgãos, danço – ainda que parada. Parada?
Como um frame – um frame! – é que esse poema se apresenta diante de mim, passa por mim. Nuvens, potência de movimento que se insinua: no mexer das nuvens, as palavras nelas bordadas podem vir a se encontrar, se esbarrar, se tocar.
Na aragem, no sopro da aura, as letras podem embaralhar: destino sentido. Tudo também pode se desfazer, se desmanchar. Todas aquelas linhas e ângulos retos não passam de ilusão ao olho objetivo da razão, ao olho do visível.
Ao olhar vibrátil, passagem de estado. Não há ali uma cruz, mas nuvens, se você sonha com elas, se você imagina, se é capaz de imaginar…
Ah, Leonilson! Essa cruz de nuvens transmutável. Cruz da transmutação de qualquer paraíso ideal em viva matéria, vida mineral da água (e do pó). Você costura uma cruz, borda nuvens, manuseia os signos, dissolvendo-os de sua desgastada simbologia carregada de moral. É essa cruz de nuvens, leve, a que tenho como amuleto, e são essas palavras bordadas nelas a minha oração, minha reza.

São Paulo, 2006. Belo Horizonte, 2016.

Se você sonha com nuvens

Se você sonha com nuvens (1991), Leonilson.

lagrimensar deserto
de grão em g-

grão em g-

lagrimensar deserto

– Qu’eu acho?
– Coaxo.

ser r-
ahn?
ehr…rã

rahn rahn rahn