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pra quem não se contenta com fatos

“PARA INVENTAR ARMAS É PRECISO INVENTAR INIMIGOS”, diz o lambe na capa do caderno de cultura do jornal de hoje. No caderno de cidades, a notícia é mais um pixador preso em Belo Horizonte (cabe completar que teve também seus objetos *lícitos* apreendidos com *truculência*, na ação do Ministério Público e do Judiciário de Minas Gerais). Dias atrás, a manchete foi que a Guarda Municipal de BH passa a usar armas. O lambe, pelo que me lembro, foi colado há poucos anos, quando pipoqueiros e outros vendedores de comida ambulantes, informais ou não, estavam sendo perseguidos em BH com a desculpa esfarrapada de vigilância sanitária, quando se tratava de uma investida higienista e gentrificadora do capital e das corporações pelo domínio do mercado, na esteira da Copa da Fifa. Neste 7 de abril que também é dia dx jornalista, taí o truísmo estampado na capa, pra quem não se contenta com fatos.

Estado de Minas EM Cultura Capa 07 abril 2016

Pol Pierart

Das Tenras

adonias

Mulheres celebrando a Adonia, festival de Adônis. Fragmento de um lebes nupcial (vaso geralmente usado no ritual de aspersão da noiva, antes do casamento) Ático de figuras vermelhas. c. 430-420

“Deus está no detalhe” é um provérbio alemão que Warburg exclamava diante das imagens. Detalhe que está na gestualidade, no movimento, conforme seu conceito de Pathosformeln (fórmula de pathos), entendido como a memória dos gestos (Didi-Huberman, em A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg). No estudo “Dürer e a Antiguidade Italiana”, Warburg mostra como as imagens da morte de ­Orfeu, que aparecem tanto em um desenho do alemão quanto em uma gravura do círculo de Mantegna, ambas do século XV, estabelecem relações próximas com a gestualidade expressiva encontrada em vasos da antiguidade greco-romana. Segundo Warburg, “a Morte de Orfeu oferece um ponto de partida seguro para se chegar, por várias direções, à compreensão dessa corrente patética contida na influência da Antiguidade redesperta”. Ou seja, os gestos e movimentos do Orfeu renascentista teriam sido recuperados, de forma intensificada, da Antiguidade clássica.

Essa intensificação dos movimentos não é percebida como mera cópia dos gestos gregos. “A ambivalência que perpassa não só a elaboração de tais produções pictóricas, mas igualmente o tempo anacrônico que as conectam em diferentes momentos, é de fundamental importância para a compreensão não só das imagens mas, também, do conceito de Pathosformeln. Para Warburg, quando tais gestos sobrevivem, quando eles ressurgem de maneira fantasmal em imagens renascentistas, observa-se, muitas vezes, uma inversão em seu sentido.” Por tal razão, que a memória dos gestos torna-se, também, fundamental para esse processo de análise imagética.

“As observações realizadas por Aby ­Warburg acerca de tais questões foram materializadas em seu Atlas Mnemosyne. Projeto de grande fôlego e que ficou inacabado, objetivava apresentar as sobrevivências (­Nachleben) das imagens e, assim, evidenciar a forma com a qual os gestos semelhantes podiam assumir significados diferentes e opostos. Além disso, o conceito de engrama, ou a memória primitiva dos movimentos, igualmente encontrava ressonância nesse amplo conjunto que visava perceber não apenas essas transmissões mas, sobretudo, a forma como transitavam no tempo.” (daqui: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S2237-101X2016000200667&script=sci_arttext)

Pois eis um fragmento do que foi um lebes gamikos Ático, um vaso nupcial usado no ritual de aspersão de uma noiva, antes do casamento, cuja temática é uma Adonia, festival de Adônis. O detalhe que me chama a atenção é a mão no colo, sobre um seio, das duas figuras femininas à esquerda (uma delas com a cabeça cortada), gesto visto na  renascentista figura central de “O Nascimento de Vênus”, de Botticelli.

Adonia ou Festa de  Adônis era um ritual antigo lamentando a morte de Adônis, realizado na entrada da primavera ou verão, exclusivamente por mulheres, numa esfera mais privada do que pública. O rito dividia-se em dois dias. No primeiro, as mulheres levavam imagens do corpo morto, do cadáver de Adônis às ruas e, como num cortejo fúnebre, batiam no peito e  dizendo lamentações, performando o choro/grito/lamúria de Vênus/Afrodite pela morte do amado.

Aqui, o gesto de bater no peito ecoa os versos “Beat your brests” da poeta grega Safo, que viveu nos séculos VII e VI a.C, nesta tradução para o inglês, em que também se lê outro gesto, o de rasgar as vestes. Observe que, em traduções para o português, lê-se flagelar e e até lacerar (Haroldo de Campos) o peito, em vez de bater:

“Gentle Adonis is dying, O Cythera, what shall we do?
Beat your breasts, O maidens, and rend your garments.

Gentle Adonis wounded lies, dying, dying.
What message, O Cythera, dost thou send?
Beat, beat your white breasts, O ye weeping maidens,
And in wild grief your mourning garments rend.” (fonte: http://www.sacred-texts.com/cla/usappho/sph60.htm)

No segundo dia da Adonia, grupos de mulheres se reuniam nos telhados, nos terraços (local usado como espaço religioso no Oriente, mas não na Grécia), chorando, bebendo e cantando. O ritual envolvia a criação de Jardim de Adônis, plantando alface, centeio, trigo (de Deméter) e outros vegetais com raízes rasas, sem profundidade, em vasos, que eram expostos ao sol para crescerem e secarem rapidamente. (ler Sennett)

Ciclo de Adônis, Ad, Adon (Adão?): deus da vegetação e do desejo. Parte do ciclo (quatro) no submundo, com Perséfone, outra parte (oito meses // oito dias do crescimento e esturricar do Jardim) com Afrodite/Vênus.

E daí?

enrolar brigadeiros,
moldar quibes
uma música ao fundo

deixe-me

um dia inteiro
convivendo com as coisinhas
e eu terei vivido

um dia feliz

mar encaracolado de espuma
no sopé duma duna
e meu pai dentro
– Não vai, não vai

e no corpo da tarde
se fez uma ferida
(Hilda Hilst)

poente mercurocromo
para retinas escoriadas

07 maio 2017

07 de maio de 2017, vista do apê da Bandeirantes. Foto: Maíra Calábria

pós Ticiano

esfolado Mársias
a cabeça atirada
à serpilheira

– ridente

do húmus exalam
vapores Ninfas
carpideiras

(não choram
são elas mesmas
choro)

Flaying of Marsyas_Titian_1570_76

12079814_1248416061851556_1799487629236446310_o Maffei

fotos: Paulo Maffei

Mãos
Orides Fontela

Com as mãos nuas
lavrar o campo:

as mãos se ferindo
nos seres, arestas
da subjacente unidade

as mãos desenterrando
luzesfragmentos
do anterior espelho

com as mãos nuas
lavrar o campo:

desnudar a estrela essencial
sem ter piedade do sangue

do livro Transposição (1969)

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Paulo Maffei 12164727_1248422218517607_1097532151_o

deix-
a
tá dada
poem’aí
buda mirele brant

Foto: Mirele Brant, abril/2017

– Um buda – percebi, ao ver esta foto, uma epifania típica de um estado haicai.

Dizem que:

O sapo simboliza a fertilidade, a abundância, a riqueza, a prosperidade, a boa sorte, o êxito, a força, a coragem, a morte, a bruxaria e a magia. É considerado em todas as mitologias como um elemento masculino.

Na alquimia, traz o simbolismo da matéria prima que sofre transformação, uma vez que exprime a cobiça desenfreada que costuma afogar a pessoa em seu próprio excesso. Ao morrer, o sapo fica negro e entra em estado de putrefação, se enchendo de seu próprio veneno, de modo que o alquimista submetia essa carcaça ao fogo do processo alquímico até o transformar num elixir capaz de matar ou salvar o indivíduo

No cristianismo simboliza a evolução espiritual.

Na China, representa o emblema de boa sorte, além de trazer a chuva. Não obstante, é considerado Yin, a divindade da lua, da noite e da água figurado no arqueiro que alcança a lua e, por isso, é transformado em sapo.”

 

Vendo e lendo, e ainda lembrando de Leapfrog, sempre presente, me ocorreu, sobre a foto de Ayana V. Jackson.

Aí já é uma rã, a imagem da potência do salto, do movimento, presente, holisticamente, na estática anfíbia, que é o que esses seres simbolizam na minha mitologia pessoal.

leapfrog ayana v jackson

Ayana V. Jackson, Leaprog (a bit of the other) Grand Matron Army

E eis que, passados os dias,  me aparece, no gramado azul da taimelaine:

Frog by Japanese artist Matsumoto Hoji from Meika Gafu 1814

Frog, do artista japonês Matsumoto Hoji , do ‘Meika Gafu’ (1814)