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topa danças.jpg

ar-
rumando

entre pilhas de livros, revistas e quetais
exumados
da arca
do enxoval
da minha mãe
biblioteca –
na falta da estante
infestada por cupins

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corpos em ecos
d’eus

“…quem tem projeto pessoal não precisa embarcar nos sonhos e planos alheios…”

“uma cidade triste de uniformes cinzas” – parafraseando maura lopes cançado

e uma também “Minha consciência da inutilidade de tudo…”

por fora da noite
lembro do esquecimento
aniversariante da véspera
boleto todo dia tal
tudo anotado na

agenda sem nexo nem sexo
duplo xis marcando
a espera de quem aguarda
no ventre um vulcão
entrar em erupção

sonhei com

uma criança menino
vestida de um bicho talvez dinossauro
cor de rosa correndo
na pradaria capim manteiga

acordo com

os lábios mexendo
a língua as palavras saindo
óvulos eremitas de nós

aproximo o nariz da trempe acesa
sulfúrea penso
no fogo com cheiro de fogo
não de queimado
cheiro do fogo
não do combustível
nem do comburente
nem do sim nem do não
cheiro depuração

esses nomes que tantas mulheres têm
e não lhes dizem nada
Raquel Rebeca Débora Sara

sou filha da primavera austral
e você do inverno
em que nasci calendária

relógios marcam elipses

impulso no bolso
vai ter nas palmas
ovos

impulso no bolso
vai ter nas mãos
ovos entre
apertar e engolir

ovos entre palmas

que o bom bem viva
acordo com essa
me pergunto onde
está a alegria
e uma vizinha responde cantando
parabéns a você
vovó vovó vovó

fui morrida

sigo barco
poros não têm
como afundar

pulando os sapos
na sarjeta segura
de quem cai

deslizar na brita
da ferrovia

do mover das montanhas
caiadas em nuvens
de solo

do mover das montanhas
caiadas em nuvens
de chão

sur-
presa numa cerca
viva de amoreiras
outra farpada

forma de força

cachorro em força de estátua

corpos brindados
gargalo trincado
calcanhar mordido
no degrau
poças de roupas

pelas grades uma planta
mostra as garras
e a sarjeta segura
de quem cai

estranha estação
o sol pela fresta

sozinha em casa
leio em voz alta
poemas de guerra

o doce do olho
de uma raposa

petricor é um cheiro
de chuva
de terra molhada
em gotas
bolhas d’ar

canina desfia a terra
crava os dentes
pedaço de quem se vai

pra quem não se contenta com fatos

“PARA INVENTAR ARMAS É PRECISO INVENTAR INIMIGOS”, diz o lambe na capa do caderno de cultura do jornal de hoje. No caderno de cidades, a notícia é mais um pixador preso em Belo Horizonte (cabe completar que teve também seus objetos *lícitos* apreendidos com *truculência*, na ação do Ministério Público e do Judiciário de Minas Gerais). Dias atrás, a manchete foi que a Guarda Municipal de BH passa a usar armas. O lambe, pelo que me lembro, foi colado há poucos anos, quando pipoqueiros e outros vendedores de comida ambulantes, informais ou não, estavam sendo perseguidos em BH com a desculpa esfarrapada de vigilância sanitária, quando se tratava de uma investida higienista e gentrificadora do capital e das corporações pelo domínio do mercado, na esteira da Copa da Fifa. Neste 7 de abril que também é dia dx jornalista, taí o truísmo estampado na capa, pra quem não se contenta com fatos.

Estado de Minas EM Cultura Capa 07 abril 2016

Pol Pierart

Das Tenras

adonias

Mulheres celebrando a Adonia, festival de Adônis. Fragmento de um lebes nupcial (vaso geralmente usado no ritual de aspersão da noiva, antes do casamento) Ático de figuras vermelhas. c. 430-420

“Deus está no detalhe” é um provérbio alemão que Warburg exclamava diante das imagens. Detalhe que está na gestualidade, no movimento, conforme seu conceito de Pathosformeln (fórmula de pathos), entendido como a memória dos gestos (Didi-Huberman, em A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg). No estudo “Dürer e a Antiguidade Italiana”, Warburg mostra como as imagens da morte de ­Orfeu, que aparecem tanto em um desenho do alemão quanto em uma gravura do círculo de Mantegna, ambas do século XV, estabelecem relações próximas com a gestualidade expressiva encontrada em vasos da antiguidade greco-romana. Segundo Warburg, “a Morte de Orfeu oferece um ponto de partida seguro para se chegar, por várias direções, à compreensão dessa corrente patética contida na influência da Antiguidade redesperta”. Ou seja, os gestos e movimentos do Orfeu renascentista teriam sido recuperados, de forma intensificada, da Antiguidade clássica.

Essa intensificação dos movimentos não é percebida como mera cópia dos gestos gregos. “A ambivalência que perpassa não só a elaboração de tais produções pictóricas, mas igualmente o tempo anacrônico que as conectam em diferentes momentos, é de fundamental importância para a compreensão não só das imagens mas, também, do conceito de Pathosformeln. Para Warburg, quando tais gestos sobrevivem, quando eles ressurgem de maneira fantasmal em imagens renascentistas, observa-se, muitas vezes, uma inversão em seu sentido.” Por tal razão, que a memória dos gestos torna-se, também, fundamental para esse processo de análise imagética.

“As observações realizadas por Aby ­Warburg acerca de tais questões foram materializadas em seu Atlas Mnemosyne. Projeto de grande fôlego e que ficou inacabado, objetivava apresentar as sobrevivências (­Nachleben) das imagens e, assim, evidenciar a forma com a qual os gestos semelhantes podiam assumir significados diferentes e opostos. Além disso, o conceito de engrama, ou a memória primitiva dos movimentos, igualmente encontrava ressonância nesse amplo conjunto que visava perceber não apenas essas transmissões mas, sobretudo, a forma como transitavam no tempo.” (daqui: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S2237-101X2016000200667&script=sci_arttext)

Pois eis um fragmento do que foi um lebes gamikos Ático, um vaso nupcial usado no ritual de aspersão de uma noiva, antes do casamento, cuja temática é uma Adonia, festival de Adônis. O detalhe que me chama a atenção é a mão no colo, sobre um seio, das duas figuras femininas à esquerda (uma delas com a cabeça cortada), gesto visto na  renascentista figura central de “O Nascimento de Vênus”, de Botticelli.

Adonia ou Festa de  Adônis era um ritual antigo lamentando a morte de Adônis, realizado na entrada da primavera ou verão, exclusivamente por mulheres, numa esfera mais privada do que pública. O rito dividia-se em dois dias. No primeiro, as mulheres levavam imagens do corpo morto, do cadáver de Adônis às ruas e, como num cortejo fúnebre, batiam no peito e  dizendo lamentações, performando o choro/grito/lamúria de Vênus/Afrodite pela morte do amado.

Aqui, o gesto de bater no peito ecoa os versos “Beat your brests” da poeta grega Safo, que viveu nos séculos VII e VI a.C, nesta tradução para o inglês, em que também se lê outro gesto, o de rasgar as vestes. Observe que, em traduções para o português, lê-se flagelar e e até lacerar (Haroldo de Campos) o peito, em vez de bater:

“Gentle Adonis is dying, O Cythera, what shall we do?
Beat your breasts, O maidens, and rend your garments.

Gentle Adonis wounded lies, dying, dying.
What message, O Cythera, dost thou send?
Beat, beat your white breasts, O ye weeping maidens,
And in wild grief your mourning garments rend.” (fonte: http://www.sacred-texts.com/cla/usappho/sph60.htm)

No segundo dia da Adonia, grupos de mulheres se reuniam nos telhados, nos terraços (local usado como espaço religioso no Oriente, mas não na Grécia), chorando, bebendo e cantando. O ritual envolvia a criação de Jardim de Adônis, plantando alface, centeio, trigo (de Deméter) e outros vegetais com raízes rasas, sem profundidade, em vasos, que eram expostos ao sol para crescerem e secarem rapidamente. (ler Sennett)

Ciclo de Adônis, Ad, Adon (Adão?): deus da vegetação e do desejo. Parte do ciclo (quatro) no submundo, com Perséfone, outra parte (oito meses // oito dias do crescimento e esturricar do Jardim) com Afrodite/Vênus.

E daí?

enrolar brigadeiros,
moldar quibes
uma música ao fundo

deixe-me

um dia inteiro
convivendo com as coisinhas
e eu terei vivido

um dia feliz

mar encaracolado de espuma
no sopé duma duna
e meu pai dentro
– Não vai, não vai