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Foto: Carol Magalhães

(his-
teria)

Ú-
TER-
OU
NÃO TER
FALO
DE MIM
NÃO SEIO QUE É
FEMININO
NEM MASCULINO

Para guardar, este texto de autoria de Ana Suy Sesarino Kuss

MEXENDO NO FORMIGUEIRO – SOBRE AS HISTERIAS

Eu queria mexer no formigueiro? Não, eu não queria mexer no formigueiro. Mas a cada postagem que faço sobre a histeria, ou se posto algum trecho de Freud ou de Lacan (e basicamente só tem isso no meu facebook), aparece alguém com um discurso feminista pautado numa leitura psicanalítica gravemente equivocada, fazendo críticas descabidas à psicanálise. Pois bem, então talvez eu deva mexer no formigueiro.
Histeria é uma palavra que vem do grego, “hystero” e que significa útero. Vocês sabem que historicamente as mulheres são vistas como loucas, né? Mas por quê? Porque tem alguma coisa nas mulheres que o pessoal não consegue explicar. Hormônios, maternidade, possessão demoníaca, bruxaria… ao longo da história houve e continua havendo várias tentativas pra explicar por que somos diferentes dos homens, que acreditam que construíram uma boa parte da história.
Pois bem, eis que a histeria nasceu de uma tentativa de explicação, no tempo de Hipócrates, baseada numa crença mais ou menos assim (há várias versões), de que o útero virava de ponta-cabeça e o sangue menstrual subia pra cabeça. Aí as mulheres ficavam loucas. A ideia de associar a histeria à mulher é herdeira dessa historinha.
De lá pra cá é claro que a medicina avançou, Freud apareceu e hoje se sabe que não é disso que se trata a histeria. Sabemos também, há muito tempo, que há homens e mulheres histéricos.
Mas tem alguma coisa que conecta histeria e feminilidade que vai para além dessa herança histórica.
A ideia do senso-comum de o que é uma mulher, que diz da fulana insatisfeita, que quer o impossível, que quando consegue o que quer descobre que na verdade o que queria era outra coisa e outra e outra e outra – não está associada à loucura, mas à estrutura do desejo.
O desejo, como conceito psicanalítico, não tem objeto. Então a gente fica querendo algo que não sabe o que é, aí diz que é isso e que é aquilo como tentativa de nominar o inominável – e por isso temos o que fazer na vida, porque a gente nunca para de querer alguma coisa. O desejo, em psicanálise, por excelência, é histérico. (Por isso Lacan diz que é preciso histericizar o discurso para que alguém entre em análise.)
Se é costume falar da histeria, no feminino, e não no masculino, não é porque hajam apenas mulheres histéricas, mas porque há uma intimidade entre histeria e feminilidade.
Mas vejam, prestem atenção, em psicanálise, a feminilidade não é determinada pela biologia do sexo, mas é um modo de construir uma resposta para a pergunta “quem sou eu?”, que toda criança faz – na melhor das hipóteses – ainda que de modo inconsciente.
Freud disse que os sujeitos masculinos são aqueles que se identificam aos que têm o falo e que os sujeitos femininos são aqueles que se identificam aos que não têm o tal do falo.
Aí, nesse ponto, beeeeem nesse ponto, a gente tem um equívoco muito grave e comum na leitura que algumas pessoas fazem na teoria freudiana, que é uma CONFUSÃO de falo com pênis.
E nisso a psicanálise lacaniana é bastante esclarecedora. (Para quem se interessar pelo assunto: leiam o texto do Lacan chamado “A significação do falo”).
O fato é: O FALO NÃO É O PÊNIS.
O pênis é apenas um dos representantes possíveis para o falo, assim como vários outros significantes são substitutos fálicos, tais como dinheiro, diploma e tudo aquilo que tem valor para o Outro em nossa cultura.
Acontece que, por questões articuladas à nossa civilização, o pênis tem um valor elevado, levando assim, muitos homens (e mulheres) a acreditarem que o pênis é o falo.
Acontece que NINGUÉM tem o falo. Mas quem se constrói de modo feminino, e nós chamamos de mulheres, sabem bem disso. Já os sujeitos a quem chamamos de homens, tendem a ser mais enganados.
Os seres masculinos, ditos homens, levam o pênis muito a sério. Tanto é que, é comum (infelizmente) que mulheres frígidas passem a vida toda sem sentir prazer sexual e sem reclamar, enquanto que, para os homens, a impotência sexual é o FIM DA VIDA. Inclusive, no senso-comum, é recorrente que as mulheres digam aos homens “pense com a cabeça de cima”. Sim, eles creem que têm o falo e que a cabeça de baixo é muitíssimo importante.
Entendo que é nesse ponto que os movimentos feministas devem focar, na separação entre falo e pênis. E não na crença de que o falo é mesmo o pênis, o que leva algumas mulheres a uma certa misandria.
Não acredito que o machismo possa ser bom pra alguém. Acho que ele é devastador para mulheres e para homens também. O machista precisa provar sua virilidade o tempo todo, precisa de uma grande dose de libido pra ocultar seus sentimentos, precisa objetalizar todas as mulheres – e ainda salvar a mãe – e tem que ter uma boa dose de homossexualidade em precisar amar tanto um pênis para poder existir. Por isso não é de se surpreender que muitos homens machistas sejam homofóbicos – é preciso aniquilar fora de si aquilo que não se consegue aniquilar dentro.
Entendo que a genialidade da contribuição psicanalítica de Freud e de Lacan é colocar o feminino, não como pertencente ao campo das mulheres, mas em colocar o feminino como enigma, como um além da lógica fálica.
Lacan pôs a feminilidade não como para quem falta algo (tal como era em Freud), mas como alguém que tem um excesso de gozo. A mulher lacaniana é aquela que não se contenta com a lógica fálica, porque sabe que há mundos e fundos para além disso.
A sexualidade feminina, nas teorias de Freud e de Lacan, não aparece no sentido binário da coisa, mas como um excesso, que aparece como enigma.
E o genial disso é que esse enigma, ao invés de ficar presente apenas no campo da histeria, na teoria psicanalítica pode aparecer do lado homem também.
Só que na masculinidade essas questões tendem a ficar mais abafadas, visto que a tal virilidade os leva a acreditar que o pênis é mesmo o falo. Um grave engano, que tem seu preço.
Os homens mais advertidos, que, muitas vezes são os que fazem análise, sabem bem desse engano e tendem a poder ter contato com esse impossível que mora neles também. Estes, que não têm tanto medo da queda da virilidade, paradoxalmente, são os mais viris.
A grosso modo, me arrisco a dizer que histéricos são os sujeitos que podem acessar os enigmas em si. Longe disso caracterizar misoginia ou reproduzir padrões culturais de machismo, entendo que os histéricos são aqueles que têm juízo e por isso têm medo do abismo – mas não recuam diante dele.

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peita

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14-janeiro-2016-fluo

jacques-gautier-dagoty-myologie-complette-en-couleur-1746-all-images-courtesy-columbia-university-medical-centers-augustus-c-long-health-sciences-library

Jacques Gautier-D’Agoty, “Myologie Complette en Couleur” (1746) (all images courtesy Columbia University Medical Center’s Augustus C. Long Health Sciences Library)

Por isso o presente de que a contemporaneidade se apercebe tem a espinha partida. O nosso tempo, o presente não é, na verdade, apenas o mais longínquo: não pode em caso algum alcançar-nos. As suas costas estão despedaçadas e nós situamo-nos exactamente no ponto da fractura. Por isso somos, apesar de tudo, contemporâneos. Compreendam bem que o encontro que está em questão na contemporaneidade não tem lugar simplesmente no tempo cronológico: é, no tempo cronológico, algo que urge dentro dele e que o transforma. E esta urgência é a intempestividade, o anacronismo que nos permite aferir o nosso tempo na forma de um “demasiado cedo” que é, também, um “demasiado tarde”, de um “já” que é, também, um “ainda não”. E, conjuntamente, reconhecer nas trevas do presente a luz que, sem nunca poder alcançar-nos, está perenemente em viagem na nossa direcção. […]» Agamben, O que é o contemporâneo?

A dignidade do corpo morto. / Arte e medicina.

Sobre as imagens e o arquivo Gautier-D’Agoty: http://hyperallergic.com/234740/18th-century-anatomical-illustrations-reveal-flayed-flesh-and-shining-bones/

imagem-arthur-leipzig

Foto de Arthur Leipzig, estadunidense fotógrafo de ruas

quando eu era criança, morando num lugar de ruas calçadas com pedras, desejava uma rua de asfalto só pra poder desenhar, depois escrever, no chão todo… com os cacos de pedras arrancados do calçamento, que davam um excelente giz!

o-ultimo-salto-de-nijinskiNijinsky salta.

“Há, ainda, koans expressos corporalmente, como em atitudes aparentemente excêntricas ou ‘demonstrações de loucura’ (gritos, danças, pulos) de mestres cuja sabedoria e proximidade da ‘Verdade Última’ são incontestáveis” Rodrigo Wolf Apolloni.

mirrado mar marrento
“Cowboys
também sambam”
botina e chapéu
andançando pela Caetés

dtsnoei

oonda